'A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.'
Final da adolescência início da fase adulta é um momento de muitas descobertas, mas também de conflitos internos e auto-afirmação. Os jovens são críticos por natureza e não perdoam qualquer tipo de atitude que foge da “normalidade”, mesmo sabendo que nessa fase nada é 100% normal. Ao começar pelas descobertas sexuais.
Quando você é jovem, perder a virgindade é uma questão de honra e afirmação da masculinidade entre os amigos, principalmente. Se não arranja um sexo com alguma menina da sua idade, ou com as mais “experientes”, procura as profissionais mesmo. E aí é que está o primeiro conflito. Quem disse que o garoto tem que perder a virgindade logo cedo, com seus 14 anos ou até menos? E por que tem que pagar para transar com uma estranha?
Ser popular na escola, ter boa lábia, conquistar as meninas mais sebosas e, obviamente, as mais gostosas do colégio parece ser o mais importante para um garoto considerado “normal” para essa faixa etária. E aquele que não se encaixa nesse perfil, já pode ser considerado marginal, esquisito, ou problemático.
Passar por essa fase da vida “ileso” não é garantia de que o adulto em que este jovem irá se tornar será bem resolvido com ele mesmo. Muitas vezes, o adulto cresce, mas continua com pensamento infanto-juvenil, querendo mostrar para os outros aquilo que ele muitas vezes não é. É claro também que as preocupações são outras, os problemas são muito mais sérios que isso. Mas quando o jovem enfrenta certos problemas chamados de “gente grande”, eles são desafiados a crescerem de forma rápida e drástica. Isso acontece, por exemplo, quando se torna órfão, quando passa por uma doença grave, ou questões financeiras etc.
Realmente, uns amadurecem e se tornam adultos respeitáveis. Já outros não aguentam a carga e acabam entrando em caminhos tortuosos, perigosos e, quando não, mortais, se “fazendo de vítima das circunstâncias”.
No inteligente filme “As melhores coisas do mundo”, os conflitos peculiares dos jovens estão lá: puberdade, sexualidade, relacionamentos, frustrações amorosas, desejos, problemas familiares, escolares etc. Em princípio, pode parecer um filme para essa idade, mas não é. Com quase trinta anos, eu me vi em alguns momentos do filme, se não agora, pelo menos pela lembrança das mesmas histórias vividas enquanto adolescente, terminando o antigo ensino médio.
Na história, Mano é um jovem de 15 anos que parece ser como outro qualquer, mas não é bem assim. Ao contrário dos seus amigos, ele não teve coragem de ir para cama com uma prostituta, não tinha lábia fácil para conquistar as meninas de sua idade e era apaixonado pela garota mais bonita (traduz: a mais gostosa) da escola. Estudava violão para impressionar as meninas. Seu melhor amigo na verdade era uma menina que andava entre os garotos, e que era a única para quem ele contava seus segredos. Admirava seu irmão um pouco mais velho que ele, por ser um cara mais “safo”, ser músico e poeta, namorar uma linda garota e levar uma vida tranquila, aparentemente sem complicações.
Talvez Lulu Santos traduzisse bem em suas letras um pouco de Mano e tantos outros garotos dessa idade. “Faltava abandonar a velha escola, tomar o mundo feito coca cola, fazer da minha vida sempre o meu passeio público, e ao mesmo tempo fazer dela o meu caminho só, único”, ou ainda “Os garotos da escola só a fim de jogar boa, e eu queria ir tocar guitarra na TV; aí veio a adolescência, e pintou a diferença, foi difícil de esquecer. A garota mais bonita, também era a mais rica, me fazia de escravo do seu bel prazer”.
Mas ao longo do filme, principalmente depois da separação de seus pais e a descoberta que seu pai tem uma nova companhia (no caso, um novo companheiro), seus problemas aumentam de forma incontrolável. Mesmo nos tempos modernos, como passar ileso numa conturbada fase da vida, quando o seu pai tem um namorado e toda sua escola fica sabendo disso? Daí entra a questão em voga do bullying (intimidação), hoje tão discutido nas escolas. Mano sofre e até apanha por preconceito dos outros garotos. Mas como ele mesmo afirma, o problema não é só com ele. Na verdade, ele é a vítima da vez, porque qualquer jovem está sujeito a passar por constrangimento, exposição e preconceito entre seus colegas. “Vivemos em um big brother do mal”, ele diz revoltado no pátio do colégio. E realmente o que se tem hoje, facilitado ainda mais pelas mídias digitais, é uma exposição exacerbada e inescrupulosa da vida alheia. Ninguém pode peidar debaixo do edredom porque no final todo mundo vai sentir o cheiro, de uma maneira ou de outra. E com certeza vão rir da sua cara, sem piedade.
O que achei interessante, talvez porque na minha época de escola não era tão comum assim, é como os jovens hoje vivem interligados e até viciados em tecnologia em tempo integral. A fofoca chega por torpedo. Uma das alunas do colégio é praticamente uma paparazza juvenil, que anda para todo canto da escola com sua máquina digital, sempre pronta para captar a imagem de alguém em situação suspeita, e depois jogar em seu blog sensacionalista para criar polêmica.
Os educadores de agora têm preocupações a mais por conta disso, assim como os pais desses jovens. Não basta educar, tem que acompanhar de perto esse avanço tecnológico, pelo menos para entender a língua dos jovens e como a Internet, através de sites de relacionamentos, comunidades online, blogs etc., interfere na vida deles.
Esse olhar crítico dos jovens está cada vez mais aguçado, apurado e, portanto, perigoso. Não existe inocente nesse jogo. O que deve existir sempre é limite dado pelos pais, principalmente. Mas isso é papo para outro post.
O que é legal citar aqui é como às vezes nós, já adultos, não percebemos como essa fase é importante para o resto das nossas vidas, seja para o bem, seja para o mal. É nessa fase que estamos formando nossa personalidade, nossos princípios, nossos ciclos de amizade, nossa conduta para vida. Aos que passaram por essa etapa cheio de dúvidas e conflitos, podem se tornar adultos emocionalmente perturbados ou, no mínimo, mal resolvidos consigo mesmo, transferindo ao próximo seus medos, suas culpas, suas frustrações.
É claro que isso não vale para todos. Muitos conseguem crescer de fato e perceber que isso foi apenas uma fase chata da vida, sem muitas boas lembranças para contar. Ninguém vai “morrer” se não foi o mais popular, o mais inteligente, o mais pegador, o mais querido etc. Não somos programados para sermos o máximo, pelo menos não deveríamos.
O tema da semana me deixou especialmente feliz. É um tema que eu adoro. É algo que eu penso todos os dias, por onde eu passo. Queria ter falado desse tema semana passada, seria mais “apropriado”. Porém, o tema da semana passada tinha que ficar na semana passada, porque é mais importante que os jardins do Éden (desculpa, Caju!).
Voltando ao tema desta semana, vou falar de algo que existe em tudo que eu vejo: Flores. Tema apropriado, pois a temporada delas está apenas começando, perfumando minha alma e de todos os sonhadores. Colorindo minha íris e de todos que acreditam no amor. Já que a temporada está chegando como uma brisa morna de fim de tarde, falo do início. Saudações à recém chegada ( e mais bela das estações): Primavera. Peço licença à Tim Maia e sua Primavera, e também à Leoni e sua Temporada das Flores.
Logicamente, devido ao nome das canções, fica óbvio que falam de amor. Da forma mais açucarada e suculenta possível: o seu nascimento, ou renascimento, como queiram. Primavera pra mim, é igual ano novo. Aliás, o ano novo deveria começar com a primavera: ambos renovam as esperanças. No ano novo, as pessoas tentam de novo, com força e persistência. Na primavera, os corações se abrem para os novos (ou antigos) amores. Para novas tentativas e possibilidades, como se não houvesse chance de serem feridos. Mas eu não vou falar de dor. Não vim falar de espinhos, mas sim de rosas. Lírios. Tulipas. Orquídeas. Flores. Jardins. Novas temporadas. Cores pelo mundo. Como um arco íris palpável, que não aparece somente após as tempestades, mas antes delas. E durante. E depois. E depois. E depois...Sem murchar ou perder as pétalas.
Tim Maia diz que quer estar junto ao seu amor quando chegar o inverno, e mesmo que voltemos ao chove-não-molha em tons de cinza do outono. Porque ele está na primavera e esse amor traz tanta força e beleza, que ele suporta qualquer estação, desde que o tenha. Nenhum frio o entristece. Nenhuma frieza, nenhum marasmo indeciso.
Leoni é detalhista e belo ao falar da sua temporada que vem chegando: ele pede que seu amor o espere, porque ele suportou um inverno desnutrido e tem fome de receber com coração e alma as flores que estão chegando a colorir seus sentimentos. Flores imaginárias que saem do amor que ele sente. Que fez nascer em seu rosto um sorriso. E que enterrou uma escuridão assombrosa, da qual ele não queria sair. Ele não conseguia achar respostas e soluções, de tão imerso que se encontrava nesse gélido coração.
Mas agora, ele achou o caminho de volta. Ele marcou o caminho com flores e promessas reais. Ele conseguiu fazer renascer todos os bons sentimentos que ele tinha e estavam congelados. E percebeu que sempre estiveram ali, perto da parte onde ele percebe a importância das pessoas em sua vida e o sentido da sua existência. Estavam na mesma gaveta que o calor das pessoas e o amor pela vida. Ele se permitiu pôr uma pedra no inverno e (re)começar a plantar flores no canteiro da sua alma.
A primavera está chegando outra vez. O amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera. Podemos recomeçar, da forma mais perfeita possível, dizia meu poeta preferido. E que com a primavera, possamos aprender a nos deixar podar e voltarmos inteiros pra nós mesmos.
Que possamos dar uma nova chance ao amor. Abrirmos novos caminhos. Plantar novos jardins. Aprender a andar e correr como se fosse a primeira vez. Porque, uma hora ou outra, entre galhos cortados, pétalas murchas e terra seca, encontraremos condições favoráveis de deixar germinar novas sementes. E mesmo que peguemos um verão temperamental, um outono melancólico e um inverno implacável, uma outra primavera virá. E numa dessas mudanças de vento, de ares e cores, encontraremos o que sempre faltou em nosso jardim. Uns chamam de flor da paixão. Eu acredito que seja amor-perfeito.
Finalizo com uma passagem de Pablo Neruda, que fala tudo sobre essa magnífica estação, e o amor. Quero apenas cinco coisas: Primeiro é o amor sem fim. A segunda é ver o outono. A terceira é o grave inverno. Em quarto lugar o verão. A quinta coisa são teus olhos. Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser... Sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Postado por Eduardo e Mônica às 16:5
O leoni é um kara que sabe retirar o que temos de mais valor; o sentimento mais puro que mora em noso coração! as musicas dele embala o romance de muitos casais e toca profundamente o coração de cada um de um modo especial! esta musica em especial é a melhor pois nos mostra que um sorriso tudo cura e nos mostra que avida é mais que coisas futeis e coisas materiais!
Quando escuto Leoni, lembro que ainda tem muita coisa legal pra ouvir, aí depois vou lembrando que já vive muita coisa boa e por último descubro que ainda tem o muito pra viver.
Essa música é a biografia de muitos de nós. Parabéns Leoni, muitas vezes você faz do simples o incrível.
que bom que em meio de tanta musica ruim ainda podemos achar coisas lindas como as musicas do Leone!
adorooo leoni e d+
a música é muito linda, mas pra quem já passou por uma fase dificil (de sombras) na vida ela fica muito mais bonita ainda, pois parece traduzir o que sentimos ao nos reerguer e seguir em frente... Tudo o que sentimos falta durante a fase dificil: o calor das pessoas e o amor pela vida... Hoje é difícil encontrarmos letras tão bonitas como estas...
Concordo plenamente com a Claudia! Essa música descreve isso mesmo, a saída de um momento de penumbra... me emociono demais quando escuto, amooo!
TEMPORADA DAS FLORES - LEONI
Que saudade agora me aguardem, Chegaram as tardes de sol a pino, Pelas ruas, flores e amigos, Me encontram vestindo meu melhor sorriso, Eu passei um tempo andando no escuro, Procurando não achar as respostas, Eu era a causa e a saída de tudo, E eu cavei como um túnel meu caminho de volta.
Me espera amor que estou chegando, Depois do inverno a vida em cores, Me espera amor nossa temporada das flores.
Eu te trago um milhão de presentes, Que eu achava que já tinha perdido, Mas estavam na mesma gaveta, Que o calor das pessoas e o amor pela vida...
Me espera estou chegando com fome, Preparando o campo e a alma pra as flores, E quando ouvir alguém falar no meu nome, Eu te juro que pode acreditar nos rumores.
Me espera amor que estou chegando, Depois do inverno a vida em cores, Me espera amor nossa temporada das flores.
Me espera amor que estou chegando, Depois do inverno é a vida em cores, Me espera amor nossa temporada das flores.
Me espera amor que estou chegando, Depois do inverno é a vida em cores, Espera amor nossa temporada das flores.
Me espera amor que estou chegando, Depois do inverno é a vida em cores, Espera amor nossa temporada das flores.
Primavera Tim Maia Composição: Cassiano / Sílvio Rochael
Quando o inverno chegar Eu quero estar junto a ti Pode o outono voltar Eu quero estar junto a ti
Porque (é primavera) Te amo (é primavera) Te amo, meu amor
Trago esta rosa (para te dar) Trago esta rosa (para te dar) Trago esta rosa (para te dar)
Meu amor... Hoje o céu está tão lindo (sai chuva) Hoje o céu está tão lindo (sai chuva
Um verdadeiro patrimônio imaterial do Ceará. Assim podemos mensurar, em parte, o 'vento Aracati' ou 'vento do Aracati', famoso ar que atravessa o Estado e que torna as conversas à beira da calçada mais prazerosa, em volta de amigos.
E a cidade de Icó faz parte do percurso deste vento, como um dos locais mais nobres por onde atravessa o 'Aracati. Esse fato, que atravessa gerações e estórias, está virando o documentário "Aracaty", da diretora Julia De Simone e com roteiro de Aline Portugal.
Esse trabalho documental teve início no fim de 2009, com uma pesquisa e a presença da jornalista Júlia Motta, do jornal O Globo, que acompanhou parte do projeto. Essa história está contada nos jornais cariocas 'O Globo' e 'Extra'.
MATÉRIA - A matéria foi publicada no domingo (31) nestes jornais. Antes da viagem da jornalista com as produtoras do documentário, houve o encontro com o físico Henrique Camelo, que publicou uma dissertação de mestrado sobre o assunto.
O físico explicou que o percurso do vento está diretamente ligado ao Rio Jaguaribe, funcionando como canalizador do 'Aracati'.
Aqui cabe uma citação dos versos de 'Iracema', de José de Alencar, publicados também na matéria: "O doce Aracati chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo árido sertão. A planta respira; um doce arrepio eriça a verde coma da floresta."
Em passagem pelo Ceará a jornalista ainda cita, em Jaguaribe, quando da chegada do vento mais famoso do Estado: "- O Aracati chegou! - exclamam todos, quase em coro." Para finalizar, vale a citação da passagem da jornalista pelo Icó:
"Seguimos depois rumo a Icó, a última cidade por onde passa o Aracati. O município, que surgiu no final do século XVII, tem vários casarões tombados e muitas histórias. Mas o tempo era curto, e não dava para perder o Aracati de vista. Naquela altura da viagem, já tínhamos percebido que era nos vilarejos menos populosos que surgiam as melhores histórias, especialmente se contadas por seus moradores mais antigos.
Chegamos então ao sítio Poço da Pedra. Serafim de Oliveira Rodrigues, de 66 anos, foi a primeira pessoa que encontramos. Ele trabalha no abastecimento de água local, e paramos para lhe perguntar sobre o vento. Jeito simples, conversador, ele conta que no lugar vivem cerca de 40 famílias, e que as coisas estão mudando muito por ali: - Desde 2003, as chuvas mudaram. Isso tem a ver com o degelo que está ocorrendo no mundo. Em Poço da Pedra, o Aracati passa na hora da novela das oito. É nesse momento do dia que a pequena Suely, de 8 anos, faz uma fogueira com a ajuda do tio, na frente de casa, e aproveita para secar as panelinhas de barro que gosta de fazer. A menina mora com a avó, dona Geralda, de 66, que nos convidou para dormir em sua casa. Durante a noite, enquanto esperávamos o Aracati passar, sentamos em tapetes em volta da fogueira e escutamos muitas histórias. - Teve um dia em que o Aracati passou tão forte que perdemos a telha da casa - conta dona Geralda, mãe de oito filhos e avó de 14 netos. Seu Serafim, que tirou o dia para nos acompanhar, relembra o momento em que ele e a família quase se afogaram no rio por causa do vento: - Era noite e estávamos em cinco barcos. Quando o Aracati passou, mexeu com tudo e caímos na água. Nadamos até a margem e chamamos um por um pelo nome para saber se todos estavam sãos e salvos. Nesse dia, ninguém precisou nos dizer nada: sentimos na hora o Aracati chegar. Ele veio e logo ajudou a espalhar a brasa e a apagar a fogueira. Era a hora de nos recolher. Naquela noite, dormimos em redes na casa de dona Geralda, embaladas durante várias horas pelo sopro do Aracati." FONTE:http://www.icoenoticia.com/search/label/hist%C3%B3ria%20de%20Ic%C3%B3 _________________________________________________________________ Veja Matéria Completa: http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2010/01/31/populacao-de-cidades-cearenses-espera-por-passagem-de-vento-especial-aracati-915748846.asp NOVA FLORESTA - CE _________________________________________________________________ VALE DO JAGUARIBE (CE) - Ele nasce no mar e percorre 300 quilômetros pelo sertão cearense, todos os dias, em horários e intensidades que mudam conforme a cidade e a estação do ano. Nas ruas simples do Vale do Jaguaribe, a população aguarda religiosamente a sua passagem. O sopro diário do Aracati, que chega para refrescar e alimentar de esperança a vida das pessoas que vivem ali, no meio do sertão, é cercado de lendas e histórias. Foi atrás delas que eu e duas amigas - a diretora Julia De Simone e a roteirista Aline Portugal - viajamos, no fim do ano passado, para fazer a pesquisa que deu início ao documentário "Aracaty". Chegamos a Fortaleza no dia 26 de dezembro e, antes de começar a viagem em direção às pequenas cidades do vale, encontramos o físico Henrique Camelo, que escreveu uma dissertação de mestrado sobre o assunto. Foi ele quem nos explicou que o percurso do vento está diretamente ligado ao Rio Jaguaribe: - O rio funciona como canalizador do vento. Conduz o Aracati. Dois dias depois, partimos em direção à cidade de Jaguaribe para sentir na pele o Aracati. Alugamos um carro e seguimos pela BR-116. A chegada à cidade foi um tanto desanimadora. Com um comércio relativamente grande e cerca de 36 mil habitantes, a imagem de pessoas sentadas em cadeiras de balanço nas calçadas à espera do vento mítico parecia não caber ali. Uma pausa para o almoço e uma bebida gelada para aliviar o calor do sertão refrescaram as ideias. Logo seguimos para a prefeitura em busca de alguém que pudesse nos guiar pela cidade. Foi lá que conhecemos Vânia Oliveira, que fez as vezes de nossa produtora. Pernambucana de 41 anos, ela um dia jogou sua aliança de noivado no telhado e foi embora para o Ceará. Anos depois, já casada, seu filho ficou um mês sem nome, até que um jornal caiu no seu colo e uma reportagem sobre Glauber Rocha lhe chamou a atenção. Pronto. Surgia mais um Glauber. Hoje, ela conhece todos em Jaguaribe e descreve assim a passagem do Aracati: - Ele chega, levanta poeira, bagunça a casa, mexe o cabelo, faz voar o vestido.
As palavras de Vânia logo nos remeteram aos versos de José de Alencar em "Iracema": "O doce Aracati chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo árido sertão. A planta respira; um doce arrepio eriça a verde coma da floresta." A curiosidade só aumentava. - A gente consegue reconhecê-lo? - indagamos as três, quase que simultaneamente. - O Aracati é diferente. Vocês vão sentir quando ele chegar - diz Vânia.
Em Jaguaribe, o Aracati chega no início da noite. Como era o começo da tarde, ainda tínhamos tempo. De cara, Vânia nos levou ao restaurante Chico do Peixe, onde conhecemos dois típicos moradores da região, seu Abílio e seu Atílio, irmãos que todos os dias mantêm a tradição de esperar o Aracati passar. Dali, partimos para a casa deles, uma construção simples de tijolos, em meio à paisagem árida do sertão, que ganhou uma varanda, construída pelos próprios, só para esperar pelo Aracati.
Na sala, uma cena que poderia inspirar Van Gogh: apenas uma cadeira e, na parede, quatro quadros com imagens religiosas. Na outra extremidade, nada de televisão. Um rádio antigo é o que traz outras vozes ao espaço. - O senhor tem quantos anos? - pergunto a seu Abílio, o mais falante dos dois. - Nasci em 1935. Não sei fazer as contas - responde ele.
A tarde caiu. Além dos dois irmãos, um sobrinho, um vizinho e duas crianças se juntaram a nós. Seu Abílio deixou a timidez de lado e começou a contar causos. Todos escutavam histórias que iam de alma penada à piada do homem que fazia tudo errado e nem se matar conseguia. Uma brisa leve passa então pela varanda. - É o Aracati? - as três perguntam, animadas. - Ainda não. O Aracati faz um barulho quando chega e refresca mesmo. Vocês vão ver - responde seu Abílio.
A prosa continua e, de repente, o cabelo começa a voar, com a chegada de um friozinho gostoso que logo acalma o calor do sertão. - O Aracati chegou! - exclamam todos, quase em coro.
Nas ruas, adultos e crianças, homens e mulheres, jovens e velhos, também comemoram a chegada do Aracati. A rua é o melhor ponto de encontro. Depois disso, Vânia nos leva até dona Dagmar, a poetisa da cidade. - O Aracati é a nossa salvação. Ele passa mais forte entre agosto e janeiro. Se o vento atrasar, atrasa o inverno também - explica Dagmar. -
O Rio Jaguaribe corre pro Aracati. No meio do percurso, banha os sonhos meus. Ficamos dois dias em Jaguaribe e seguimos para os distritos de Feiticeiro, Mapuá e Nova Floresta. Quando chegamos a este último local, conhecemos o historiador Paulo Silva. Além de contar histórias sobre o Aracati, ele fez questão de caminhar pelas ruas conosco e nos levou até a casa onde Luís Carlos Prestes ficou hospedado quando a Coluna Prestes passou por lá. - Quatro mil homens dormiram pelas ruas - conta Paulo, que, além de saber muitas histórias, também não perde a passagem do vento.
Seguimos depois rumo a Icó, a última cidade por onde passa o Aracati. O município, que surgiu no final do século XVII, tem vários casarões tombados e muitas histórias. Mas o tempo era curto, e não dava para perder o Aracati de vista. Naquela altura da viagem, já tínhamos percebido que era nos vilarejos menos populosos que surgiam as melhores histórias, especialmente se contadas por seus moradores mais antigos. Chegamos então ao sítio Poço da Pedra. Serafim de Oliveira Rodrigues, de 66 anos, foi a primeira pessoa que encontramos. Ele trabalha no abastecimento de água local, e paramos para lhe perguntar sobre o vento. Jeito simples, conversador, ele conta que no lugar vivem cerca de 40 famílias, e que as coisas estão mudando muito por ali: - Desde 2003, as chuvas mudaram. Isso tem a ver com o degelo que está ocorrendo no mundo.
Em Poço da Pedra, o Aracati passa na hora da novela das oito. É nesse momento do dia que a pequena Suely, de 8 anos, faz uma fogueira com a ajuda do tio, na frente de casa, e aproveita para secar as panelinhas de barro que gosta de fazer. A menina mora com a avó, dona Geralda, de 66, que nos convidou para dormir em sua casa. Durante a noite, enquanto esperávamos o Aracati passar, sentamos em tapetes em volta da fogueira e escutamos muitas histórias. - Teve um dia em que o Aracati passou tão forte que perdemos a telha da casa - conta dona Geralda, mãe de oito filhos e avó de 14 netos.
Seu Serafim, que tirou o dia para nos acompanhar, relembra o momento em que ele e a família quase se afogaram no rio por causa do vento: - Era noite e estávamos em cinco barcos. Quando o Aracati passou, mexeu com tudo e caímos na água. Nadamos até a margem e chamamos um por um pelo nome para saber se todos estavam sãos e salvos.
Nesse dia, ninguém precisou nos dizer nada: sentimos na hora o Aracati chegar. Ele veio e logo ajudou a espalhar a brasa e a apagar a fogueira. Era a hora de nos recolher. Naquela noite, dormimos em redes na casa de dona Geralda, embaladas durante várias horas pelo sopro do Aracati.
Nos dias seguintes, passamos pelos vilarejos de Tabuleiro, Limoeiro do Norte, Russas e Jaguaruana. Neste último, o radialista Augusto nos levou até outra lenda viva da região, Zé da Marieta, o profeta da chuva local. Aos 62 anos, é ele quem faz a previsão de como será o inverno no sertão: bom (com muita chuva) ou seco. Ele nos conta que sua análise é feita a partir de observações tanto do movimento dos planetas quanto do canto de um pássaro durante a lua cheia. E o comportamento do Aracati, claro, jamais fica fora de suas previsões. - Só sei escrever meu nome, mas desde os 14 anos começaram a me ensinar a saber quando a chuva chega - conta o profeta, casado com dona Maria, com quem tem 11 filhos e 16 netos.
Cabelos brancos como algodão presos em coque, rosto marcado pelo tempo e voz mansa, outra habitante de Jaguaruana, dona Nazaré, de 94 anos, gosta de sentir o vento batendo no rosto: - Sua brisa acalma a gente.
A viagem termina em Aracati, cidade batizada com o nome do vento porque é justamente ali que começa a sua trajetória pelo sertão. O lugar, não por acaso, é conhecido pela produção de energia eólica. Os cataventos nos serviram de inspiração, assim como as cadeiras de balanço, as roupas secando no varal, os rostos do povo simples que mora ali. Afinal, durante toda a viagem, o principal desafio era traduzir o Aracati em imagens. Todos os dias, antes de dormir, assistíamos ao material gravado e discutíamos os próximos passos.
Antes de partir para o Ceará, passamos um ano trabalhando na busca de informações sobre o Aracati, que em tupiguarani significa bons ventos. O objetivo da ida ao Ceará também era coletar imagens para serem exibidas na feira Real Screen Summit, em Washington, especializada em documentários e programas de TV, que começa amanhã (31/01/2010). No início de dezembro (2009), o projeto foi apresentado no Pic Doc (Programa Internacional de Capacitação para Documentários), ganhou elogios do francês Emmanuel Priou, produtor de "A marcha dos pinguins", e ficou entre os dez melhores, o que lhe garantiu a participação na feira americana. Os dez dias de viagem enriqueceram a pesquisa sobre esse vento que povoou o nosso imaginário por tanto tempo. O próximo passo é transformar tanta espera em encontro. Em "Aracaty".
Fonte: http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2010/01/31/populacao-de-cidades-cearenses-espera-por-passagem-de-vento-especial-aracati-915748846.asp. Acesso em 1 de fevereiro de 2010.